sábado, maio 25, 2013

CELEBRADA MEMÓRIA DOS JUDEUS DE CABO VERDE

Dezenas de descendentes de judeus que viveram no arquipélago africano de Cabo Verde, antiga colónia portuguesa, vieram de toda a Europa e Estados Unidos para assistirem à rededicação de um há muito negligenciado espaço no cemitério católico da Várzea, na capital do país, e que foi restaurado com a ajuda financeira do rei Mohammed VI, de Marrocos.
Estas dezenas de descendentes da antiga comunidade judaica que habitou estas ilhas e que agora se encontram espalhados por todo o mundo, guardaram momentos de respeitoso silêncio em homenagem aos seus ancestrais. O mais impressionante é que foi um rei muçulmano que financiou a reconstrução desta memória física da comunidade judaica.
A reunião emotiva realizou-se na cidade da Praia, capital da República de Cabo Verde, cuja língua oficial é o português.
A emoção aumentou quando alguns descobriram laços comuns não só de amizade como até familiares. Para os organizadores do evento, este é um símbolo da tolerância que se pode desenvolver entre diferentes religiões e raças.
"Eu quero saber de onde venho, quem sou, e para onde vou. Sem o meu passado, não tenho identidade, e corro o risco de me perder," - disse John Wahnon, oriundo de Washington, E.U.A.
As 10 ilhas que compõem o arquipélago de Cabo Verde encontram-se a cerca de 570 kms. da costa do continente africano. Este arquipélago foi descoberto e colonizado por Portugal no século XV, e constituía um privilegiado entreposto comercial entre a África e a América do Sul.
Algumas centenas de judeus provenientes de Marrocos vieram para as ilhas no século 19, iniciando negócios e assumindo posições no governo, casando também com católicos residentes nas ilhas.
Muitos judeus já tinham no entanto vindo deportados de Portugal em 1460, estabelecendo-se nas ilhas. 
Hoje, para além de uma sinagoga, não existem mais judeus nas ilhas de Cabo Verde, apenas descendentes, muitos deles já integrados na cultura católica local. Há no entanto muitos traços judaicos, até nos próprios nomes comuns existentes entre os habitantes: Cohen, Levi, Ferreira, e até uma localidade denominada "Sinagoga".
Juntando-se aos 50 descendentes ali presentes, o rabi-mor de Lisboa, Eliezer Shai di Martino, veio também orar ao lado Abdallah Bouta, emissário do rei de Marrocos, bem como o presidente da Câmara Municipal da cidade da Praia, sr. Ulisses Correia e Silva.
Entre os presentes não foram manifestadas expressões de tristeza, sendo a atmosfera mais propícia a um espírito de celebração, como se se tratasse de uma reunião de família composta de amizades reunidas e recém-formadas.
Muitos afirmaram que finalmente tinha sido feita justiça à memória dos seus ancestrais, que fugiram à perseguição nas cidades marroquinas de Tânger, Tetouan, Rabat e Essaouira.

"GESTO DE TOLERÂNCIA E RESPEITO"
Ao mesmo tempo que muitos dos descendentes dos judeus que viveram em Cabo Verde estão agora na Diáspora, espalhados pelo mundo todo, maioritariamente nos E.U.A., muitos estão mesmo assim assimilados entre as mais distintas famílias desta república que conta com cerca de 500.000 habitantes.
Nas palavras do ex-primeiro ministro de Cabo Verde, Carlos Wahnon Veiga, "os descendentes judeus proporcionaram gente de qualidade em todas as esferas de vida e também empreendedores que contribuíram imenso para o desenvolvimento do país."
Segundo Carol Castiel, uma jornalista de Washington que lidera o "Projecto de Preservação da Herança Judaica de Cabo Verde", os judeus são influentes em todos os níveis da sociedade cabo-verdiana, onde desempenham importantes lugares na navegação, na política e nos negócios.
Os próprios ancestrais de Wahnon estabeleceram-se em Mindelo, um activo porto internacional no século 19, que recentemente se tornou melhor conhecido por ser a cidade berço da famosa cantora cabo-verdiana Cesária Évora.



O "Projecto de Preservação da Herança Judaica de Cabo Verde"  (www.capeverdejewishheritage.org) espera poder restaurar outros lugares judaicos de sepultamento - dois em Santo Antão, separado do Mindelo por um pequeno estreito, e outro na Boa Vista - e também prosseguir nas pesquisas históricas.
Todos os presentes nesta celebração não se cansaram de elogiar o rei Mahommed pela sua contribuição financeira para o restauro dos túmulos judaicos.
Segundo Castiel, ele foi motivado por um interesse mais amplo de preservar a herança judaica sefardita no seu reino.
Segundo Veiga, "o facto de um muçulmano poder financiar a restauração de túmulos judaicos num cemitério católico num país predominantemente católico é algo de belo e um gesto extraordinário de tolerância e respeito."
Sem dúvida. Um gesto bonito e um exemplo a seguir...
Shalom, Israel!





1 comentário:

Anónimo disse...

Impressionante e emocionante.Esse movimento de ressurreição e descobrimento da herança judaica pelo mundo é algo sobrenatural.O sobrenatural de D'us.

Fabiana Leite