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segunda-feira, julho 22, 2024

INAUGURADO OFICIALMENTE O MUSEU DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES


Com a presença do presidente da república, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, o embaixador de Israel em Portugal e várias outras autoridades e entidades, foi finalmente inaugurado nesta passada Sexta-Feira e Sábado o Museu de Aristides de Sousa Mendes, instalado na "casa do Passal", onde o cônsul português viveu alguns anos da sua vida juntamente com a sua numerosa família: esposa e 14 filhos.

O museu situa-se na localidade de Cabanas de Viriato, perto de Carregal do Sal, no interior centro do país.


Como velho e fiel admirador da vida e da obra humanitária deste grande herói português, não poderia deixar de estar presente com uma das minhas filhas na tão ansiada inauguração deste Museu, uma vez que em 2013 me envolvi numa campanha para a reabilitação desta casa, então em completa ruína. 


Despromovido pelo ditador Salazar por ter desobedecido às suas ordens, por ter emitido vistos no consulado português em Bordéus para que cerca de 30 mil refugiados, na grande maioria judeus, pudessem escapar dos horrores do Holocausto, permitindo que se refugiassem em Portugal até embarcarem posteriormente para as Américas, o "cônsul desobediente" preferiu "estar de bem com Deus contra os homens a estar de bem com os homens contra Deus." Aristides de Sousa Mendes, quiçá o maior humanista português de sempre, preferiu colocar as vidas dos outros à frente dos seus próprios interesses pessoais. Que grande exemplo de altruísmo! Como recompensa, Salazar despromoveu-o da sua condição de cônsul, tirando-lhe o salário, levando a que o cônsul acabasse os seus dias na maior miséria, doente e com imensas dívidas na farmácia e na mercearia, que mais tarde lhe viriam a penhorar a casa da família...

Volto a afirmar que Aristides de Sousa Mendes, tão maltratado pelo estado e desconhecido ou esquecido pelas autoridades e pela maioria dos portugueses, foi mesmo assim o maior herói da nossa História, realizando um acto singular, desprovido de qualquer apoio, mas culminando com a salvação física de milhares de judeus, alguns deles figuras importantes, como é o caso de Salvador Dali...


Mesmo implorando o favor e a mercê de Salazar, que se dizia cristão, para que não acabasse por morrer à fome juntamente com a sua enorme prole, o cônsul recebeu como resposta o desamparo e a despromoção profissional. Não só Salazar, mas o próprio papa da época, a quem Aristides solicitou em duas cartas o socorro e a misericórdia que se esperariam de um "cristão", remeteu-se ao silêncio, não respondendo a nenhuma das duas cartas, cujas cópias oferecidas por um dos netos do cônsul guardo com muito carinho. Aristides tentou tocar no coração do papa, alegando que tinha realizado um acto de misericórdia aos "irmãos de Jesus", salvando 30 mil deles, mas a resposta que recebeu foi o absoluto silêncio...


Este Museu agora aberto ao público é assim visita obrigatória para quem ama o povo judeu e também a nossa História, repleta de grandes feitos heróicos, mas nenhum com este alcance humanista de âmbito mundial. Visitar este Museu é prestar a devida e justa homenagem a tão importante figura da nossa História, e que tanto nos deveria encher de orgulho, pese embora o triste facto de continuar ignorado por muitos, injustiçado e até desprestigiado pela nossa comunicação social, presente na inauguração, mas mais interessada em inquirir do presidente as suas opiniões sobre questiúnculas da política nacional...Uma vergonha! É lamentável o estado a que a nossa comunicação social chegou, preferindo dedicar o seu tempo a temas dispensáveis do que prestigiar e tornar conhecido ao público a pessoa e a obra do grande Aristides de Sousa Mendes...!

Todas as vezes que vamos a Israel com um grupo de turistas portugueses e brasileiros, fazemos questão de visitar a árvore plantada em homenagem a Aristides de Sousa Mendes no Museu do Holocausto, em Jerusalém, a capital de Israel, aproveitando o ensejo para narrar um pouco da história deste cônsul português só muito recentemente reabilitado pelo estado português. 


A "Casa do Passal" onde se encontra o Museu esteve ao abandono total durante décadas, tendo o seu interior sido praticamente todo espoliado. Quando ali estivemos pela primeira vez em 2013 aquando de uma grande homenagem ali prestada por familiares descendentes de refugiados salvos pelo cônsul, constatámos da vergonha que a casa praticamente em ruínas revelava sobre a atitude dos vários governos do estado português, que nada fizeram durante décadas para reconstruir o palacete e honrar a memória do cônsul que em apenas 48 horas, passou vistos no consulado de Bordéus, para que cerca de 30 mil seres humanos pudessem escapar dos fornos crematórios nazis...Esse desmazelo só revela a miserabilidade e mesquinhez de um estado que negligencia e até maltrata os seus verdadeiros heróis, em troca de outros valores insignificantes por comparação. 

O Museu pode ser visitado de Terça a Domingo, entre as 10 e as 13, e as 14 e as 18 horas, com entradas gratuitas até ao final do mês de Agosto. Vale a pena visitar e conhecer este espaço, prestando assim o merecido tributo ao cônsul, conhecer a sua vida e percurso como cônsul em várias partes do mundo, ver alguns exemplares dos vistos por ele passados quando cônsul em Bordéus, e ainda os testemunhos de alguns dos muitos que ele salvou do extermínio nazi. 

Esta Casa é na verdade "um lugar de memória."

Poder no final do dia estar com um dos netos do cônsul Aristides, ouvir de viva voz por mais de uma hora alguns relatos sobre a vida desse grande homem, foi para mim um privilégio, acrescentando ainda mais admiração àquela que já nutria pelo cônsul. Tratou-se na realidade de uma verdadeira aula de História, melhor ainda, ter participado de uma lição sobre o humanismo exemplar demonstrado na prática por aquele grande vulto, um modelo a seguir pelas próximas gerações...

Shalom, Israel!


sexta-feira, junho 21, 2013

HOMENAGEM A ARISTIDES DE SOUSA MENDES: FINALMENTE O INÍCIO DA RECONSTRUÇÃO DA CASA MUSEU?

Mais de mil pessoas reuniram-se ontem na aldeia beirã portuguesa de Cabanas de Viriato para um evento que poderá finalmente mudar o estado lamentável em que se encontra a casa que um dia abrigou a família de um "homem justo", o cônsul português em Bordéus que em 1940 decidiu desobedecer às ordens do então primeiro-ministro António Salazar, e emitir em apenas 48 horas os vistos para que 30 mil pessoas - muitas das quais judeus - pudessem entrar em Portugal, fugindo do Holocausto, partindo mais tarde para destinos acolhedores longínquos: Brasil e Estados Unidos da América.
YARA, BRASILEIRA, FILHA DE CASAL "SALVO" POR ARISTIDES
É muito conhecida a História deste grande humanista português, já tema de vários filmes, documentários, livros, conferências e comemorações. Várias fundações foram criadas em Portugal, França e agora nos E.U.A. para promover não só os ideais humanistas deste homem mas também para tentar levantar apoios para a reconstrução da casa do cônsul, num lamentável estado, completamente em ruínas, e votada ao esquecimento pelos consequentes governos portugueses, desde Salazar até ao actual Cavaco Silva.
UM DOS SOBREVIVENTES "SALVOS" POR ARISTIDES
Nas 48 horas em que Aristides de Sousa Mendes emitiu os vistos para aqueles 30 mil judeus, a vida sorriu para todos esses futuros condenados à morte, figurando entre eles alguns nomes conhecidos, como é o caso do famoso pintor Salvador Dali.

MAIS DE 3 MIL DESCENDENTES JÁ LOCALIZADOS
A iniciativa de ontem partiu de grupos de descendentes de sobreviventes salvos por Aristides, especialmente nos E.U.A., tendo-se criado uma fundação para o rastreio das famílias dos 30 mil que tendo sido salvos pela bondade do cônsul português, passaram por Portugal e foram mais tarde acolhidos pelos EUA e pelo Brasil. É um trabalho difícil e moroso, mas ontem mesmo iniciou-se algo que poderá no mínimo mudar a situação da casa de Aristides. 

Muitas entidades estiveram presentes, desde uma representante do Ministério da Cultura, ao embaixador de Israel, ao rabino de Lisboa, a representantes municipais, etc., mas as pessoas mais relevantes foram sem dúvida alguns familiares do cônsul, especialmente o sr. António Sousa Mendes, neto directo do herói nacional, e que amavelmente nos concedeu uma entrevista que publicaremos atempadamente neste blog, e também um dos sobreviventes, agora com 85 anos, e que na altura tinha apenas 8 anos de idade, lembrando-se ainda do drama vivido pelos seus pais e por ele próprio no caminho de fuga entre Bordéus e Portugal.
ANTÓNIO SOUSA MENDES, NETO DO GRANDE HERÓI
Vários descendentes (uns 30) dos sobreviventes vindos dos EUA, Brasil, França, etc., fizeram questão de estarem presentes nesta homenagem ao grande homem que honra a História de Portugal e do mundo, já apelidado de "Schindler português", ainda que na minha opinião muito mais nobre do que o alemão Óscar Schindler, uma vez que este "salvou" pouco mais de 1000 judeus, mas "aproveitou-se" da mão de obra barata deles para seu proveito pessoal, enquanto que a acção humanitária de Aristides foi totalmente despretensiosa, custando-lhe até a perda da sua posição e trabalho como cônsul em Bordéus e a miséria material com que ele e sua família (15 filhos) tiveram de enfrentar os últimos anos de vida...
FAMÍLIAS INTEIRAS "SALVAS" POR ARISTIDES
O ditador Salazar não só não aceitou a "desobediência" de Aristides, como tratou de o "castigar", deixando este grande Homem completamente na miséria...
O porta voz do governo português prometeu ontem mesmo uma ajuda de mais de 300 mil euros para a reconstrução do telhado da casa, que se encontra completamente em ruínas. A salientar que dessa verba, 85% são provenientes de fundos comunitários.
Esperamos para ver até que ponto essa promessa se irá cumprir...

INAUGURAÇÃO DO MUSEU
ARQUITECTO JUDEU RESPONSÁVEL PELA OBRA
Ontem foi também inaugurado o primórdio do Museu dedicado à vida e obra de Aristides de Sousa Mendes numa construção provisória na entrada da casa, fruto do projecto de um jovem promissor arquitecto norte americano, ele mesmo neto de um dos sobreviventes salvos por Aristides, e que também esteve presente nas cerimónias realizadas ontem.
Apesar dos discursos de ocasião proferidos pelos representantes municipais e governamentais, a verdade patente diante dos olhos de todos é que a casa está completamente em ruínas, em risco de cair, já que nenhuma obra de recuperação ali foi feita nas últimas décadas. Isto apesar de ontem mesmo alguns desses representantes oficiais terem afirmado que sempre estiveram apoiando o projecto, e outras afirmações de ocasião típicas de políticos hipócritas e aproveitadores de ocasiões como as de ontem para se colocarem nos bicos dos pés...
Todos os descendentes presentes ontem nas homenagens ficaram visivelmente chocados com o estado da casa, interrogando-se certamente vezes sem conta porque será que Portugal trata os seus filhos e heróis desta forma...
Espero sinceramente que a partir de ontem as coisas comecem a mudar. Todo o evento foi acompanhado por todas as grandes estações de TV portuguesas, pela rádio e por alguns dos mais importantes jornais.
Ficou portanto o registo. Resta-nos agora "ver para crer".
O importante é a memória e o exemplo que Aristides deixou a toda a humanidade. Foi ontem citada a frase bíblica que "mais importa obedecer a Deus do que aos homens". Certamente que sim. Aristides foi bem o exemplo disso. Quando questionado sobre aquilo que o levou a tomar tão arriscada decisão, ele simplesmente respondeu: "Prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus."
Shalom!