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segunda-feira, julho 22, 2024

INAUGURADO OFICIALMENTE O MUSEU DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES


Com a presença do presidente da república, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, o embaixador de Israel em Portugal e várias outras autoridades e entidades, foi finalmente inaugurado nesta passada Sexta-Feira e Sábado o Museu de Aristides de Sousa Mendes, instalado na "casa do Passal", onde o cônsul português viveu alguns anos da sua vida juntamente com a sua numerosa família: esposa e 14 filhos.

O museu situa-se na localidade de Cabanas de Viriato, perto de Carregal do Sal, no interior centro do país.


Como velho e fiel admirador da vida e da obra humanitária deste grande herói português, não poderia deixar de estar presente com uma das minhas filhas na tão ansiada inauguração deste Museu, uma vez que em 2013 me envolvi numa campanha para a reabilitação desta casa, então em completa ruína. 


Despromovido pelo ditador Salazar por ter desobedecido às suas ordens, por ter emitido vistos no consulado português em Bordéus para que cerca de 30 mil refugiados, na grande maioria judeus, pudessem escapar dos horrores do Holocausto, permitindo que se refugiassem em Portugal até embarcarem posteriormente para as Américas, o "cônsul desobediente" preferiu "estar de bem com Deus contra os homens a estar de bem com os homens contra Deus." Aristides de Sousa Mendes, quiçá o maior humanista português de sempre, preferiu colocar as vidas dos outros à frente dos seus próprios interesses pessoais. Que grande exemplo de altruísmo! Como recompensa, Salazar despromoveu-o da sua condição de cônsul, tirando-lhe o salário, levando a que o cônsul acabasse os seus dias na maior miséria, doente e com imensas dívidas na farmácia e na mercearia, que mais tarde lhe viriam a penhorar a casa da família...

Volto a afirmar que Aristides de Sousa Mendes, tão maltratado pelo estado e desconhecido ou esquecido pelas autoridades e pela maioria dos portugueses, foi mesmo assim o maior herói da nossa História, realizando um acto singular, desprovido de qualquer apoio, mas culminando com a salvação física de milhares de judeus, alguns deles figuras importantes, como é o caso de Salvador Dali...


Mesmo implorando o favor e a mercê de Salazar, que se dizia cristão, para que não acabasse por morrer à fome juntamente com a sua enorme prole, o cônsul recebeu como resposta o desamparo e a despromoção profissional. Não só Salazar, mas o próprio papa da época, a quem Aristides solicitou em duas cartas o socorro e a misericórdia que se esperariam de um "cristão", remeteu-se ao silêncio, não respondendo a nenhuma das duas cartas, cujas cópias oferecidas por um dos netos do cônsul guardo com muito carinho. Aristides tentou tocar no coração do papa, alegando que tinha realizado um acto de misericórdia aos "irmãos de Jesus", salvando 30 mil deles, mas a resposta que recebeu foi o absoluto silêncio...


Este Museu agora aberto ao público é assim visita obrigatória para quem ama o povo judeu e também a nossa História, repleta de grandes feitos heróicos, mas nenhum com este alcance humanista de âmbito mundial. Visitar este Museu é prestar a devida e justa homenagem a tão importante figura da nossa História, e que tanto nos deveria encher de orgulho, pese embora o triste facto de continuar ignorado por muitos, injustiçado e até desprestigiado pela nossa comunicação social, presente na inauguração, mas mais interessada em inquirir do presidente as suas opiniões sobre questiúnculas da política nacional...Uma vergonha! É lamentável o estado a que a nossa comunicação social chegou, preferindo dedicar o seu tempo a temas dispensáveis do que prestigiar e tornar conhecido ao público a pessoa e a obra do grande Aristides de Sousa Mendes...!

Todas as vezes que vamos a Israel com um grupo de turistas portugueses e brasileiros, fazemos questão de visitar a árvore plantada em homenagem a Aristides de Sousa Mendes no Museu do Holocausto, em Jerusalém, a capital de Israel, aproveitando o ensejo para narrar um pouco da história deste cônsul português só muito recentemente reabilitado pelo estado português. 


A "Casa do Passal" onde se encontra o Museu esteve ao abandono total durante décadas, tendo o seu interior sido praticamente todo espoliado. Quando ali estivemos pela primeira vez em 2013 aquando de uma grande homenagem ali prestada por familiares descendentes de refugiados salvos pelo cônsul, constatámos da vergonha que a casa praticamente em ruínas revelava sobre a atitude dos vários governos do estado português, que nada fizeram durante décadas para reconstruir o palacete e honrar a memória do cônsul que em apenas 48 horas, passou vistos no consulado de Bordéus, para que cerca de 30 mil seres humanos pudessem escapar dos fornos crematórios nazis...Esse desmazelo só revela a miserabilidade e mesquinhez de um estado que negligencia e até maltrata os seus verdadeiros heróis, em troca de outros valores insignificantes por comparação. 

O Museu pode ser visitado de Terça a Domingo, entre as 10 e as 13, e as 14 e as 18 horas, com entradas gratuitas até ao final do mês de Agosto. Vale a pena visitar e conhecer este espaço, prestando assim o merecido tributo ao cônsul, conhecer a sua vida e percurso como cônsul em várias partes do mundo, ver alguns exemplares dos vistos por ele passados quando cônsul em Bordéus, e ainda os testemunhos de alguns dos muitos que ele salvou do extermínio nazi. 

Esta Casa é na verdade "um lugar de memória."

Poder no final do dia estar com um dos netos do cônsul Aristides, ouvir de viva voz por mais de uma hora alguns relatos sobre a vida desse grande homem, foi para mim um privilégio, acrescentando ainda mais admiração àquela que já nutria pelo cônsul. Tratou-se na realidade de uma verdadeira aula de História, melhor ainda, ter participado de uma lição sobre o humanismo exemplar demonstrado na prática por aquele grande vulto, um modelo a seguir pelas próximas gerações...

Shalom, Israel!


sexta-feira, fevereiro 01, 2019

NAÇÕES UNIDAS PRESTARAM HOMENAGEM A ARISTIDES DE SOUSA MENDES

ANTÓNIO GUTERRES COM MEMBROS DA "FUNDAÇÃO
SOUSA MENDES" E FAMILIARES DOS BENEFICIÁRIOS
DOS 30 MIL VISTOS PASSADOS POR ARISTIDES
Na passada Segunda-Feira, dia 28 de Janeiro, vários beneficiários dos vistos concedidos em 1940 pelo então cônsul português em Bordéus Aristides de Sousa Mendes juntaram-se a Louis-Philippe Mendes e a outros representantes da "Fundação Sousa Mendes", na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para uma homenagem ao herói português e a outros 7 diplomatas com exemplos semelhantes.
O grupo contou ainda com a presença de vários sobreviventes do Holocausto e familiares das vítimas.

O secretário-geral das Nações Unidas, o também português António Guterres, juntou-se aos participantes deste tributo mais que devido ao homem que, contra as ordens expressas pelo então primeiro-ministro António Salazar, decidiu desobedecer às mesmas, emitindo num espaço de 48 horas cerca de 30.000 vistos a refugiados da guerra que procuravam refúgio em Portugal, na maioria judeus.
Na cerimónia de homenagem ao herói português, discursaram o secretário-geral António Guterres, o diplomata português na ONU Francisco Duarte Lopes e Maria de Fátima Mendes, cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque e familiar de Aristides de Sousa Mendes.

UM ACTO HERÓICO E DE UM INVULGAR ALTRUÍSMO
O acto heróico e altruísta deste cônsul granjeou-lhe o reconhecimento internacional, excepto no seu próprio país, onde o governo de então lhe retirou o posto diplomático, permitindo que o ex-cônsul morresse na completa miséria e abandono, não obstante os sucessivos apelos ao estado português e à Santa Sé. Todos eles sem resposta...
Só muitos anos depois é que o parlamento português decidiu homenagear Aristides de Sousa Mendes, sendo actualmente uma figura incontornável na recente História de Portugal. Na minha opinião, trata-se do maior herói que Portugal alguma vez "produziu", ainda que continue a ser muito mais lembrado e homenageado fora do seu próprio país. Só muito recentemente é que o palacete onde o ex-cônsul viveu, já em plena desgraça económica e social, e cujas paredes ameaçavam ruir a qualquer momento, acabou por receber a devida atenção internacional, em grande parte graças à "Fundação Sousa Mendes", sediada nos EUA, e completamente recuperado segundo o traçado original, prevendo-se para breve a instalação de um museu.
Aristides de Sousa Mendes foi desde 1966 incluído na longa lista dos "justos entre as nações" patente no Museu do Holocausto de Jerusalém, através da plantação de uma árvore e de dados biográficos em exposição permanente no Museu. 
Tornou-se mundialmente célebre a frase que lhe serviu de lema para a acção heróica que decidiu tomar, mesmo às custas da sua carreira e segurança económica e familiar: "Prefiro estar de bem com Deus contra os homens do que estar de bem com os homens contra Deus."

EXPOSIÇÃO NA ONU
Foi também inaugurada na ONU, em 29 de Janeiro passado, uma exposição fotográfica dedicada a estes diplomatas heróis, denominada: "Para além do dever: diplomatas justos entre as nações."
Esta exposição estará aberta ao público na sede da ONU até ao próximo dia 25 de Fevereiro.

ARISTIDES DE SOUSA MENDES
EM 1940
HOMENAGEADO PELO "NEW YORK TIMES"
Aristides de Sousa Mendes foi também "assunto" de um artigo de opinião escrito por Richard Hurowitz no conhecido diário nova-iorquino, sob o título: "Ele ajudou judeus a escaparem do Holocausto. Morreu ignorado." A dado passo, ele escreve: "Quem quer que tenha visto "Casablanca" (filme) sabe da ligação entre Portugal e os refugiados da Segunda Guerra Mundial. Mas poucos conhecem a História do diplomata português Aristides de Sousa Mendes, que em 1940 salvou dezenas de milhares de vidas, acabando por ser punido pelo seu heroísmo pelo seu próprio governo."
Nas palavras deste autor, e que eu subscrevo inteiramente, "devemos honrar este homem que se envolveu naquilo que um historiador descreveu como "talvez a maior acção resgatadora conduzida por um só homem durante o Holocausto."

Shalom!

sábado, setembro 08, 2018

CRÓNICAS DE UMA MEMORÁVEL EXCURSÃO A ISRAEL - Última parte

30 de Agosto de 2018
 
O inevitável dia chegara. Como reza o ditado, "Não há bem que sempre dure..."
Um misto de tristeza, nostalgia e ansiedade assaltava muitos de nós. Mas, graças a Deus, este é um problema que tem solução. Há sempre um Israel que espera por nós...
 
Iniciámos a breve jornada com a imperdível passagem pela MAQUETE DE JERUSALÉM, junto ao Museu do Livro, obra de vida de um senhor judeu que conseguiu montar num espaço razoável uma maquete daquilo que seria a Cidade de Jerusalém nos dias do Messias Jesus.
 
É um trabalho impressionante, e visitar detalhadamente esta enorme maquete exactamente no final da visita é particularmente pedagógico e útil para, num espaço de meia hora, relembrar tudo aquilo que foi visitado nestes últimos dias.
O ponto principal da maquete é o Templo de Herodes, uma fantástica construção facilmente visível a partir de todos os pontos da cidade. Logo ao lado, a sumptuosa Fortaleza Antónia onde o nosso Mestre Jesus foi injusta e cruelmente julgado.
 
MUSEU DO LIVRO
Ainda que tenhamos visitado Qumran, em pleno deserto da Judeia, nada mais pudemos ver senão as ruínas da antiga cidade dos essénios e as grutas onde em 1947 foram encontrados os manuscritos do Mar Morto.
Eis que agora temos a oportunidade de ver neste museu alguns dos manuscritos originais ali encontrados - tanto textos da Bíblia hebraica, como textos relativos à vida em comunidade, e outros apocalípticos - e ainda alguns objectos em barro e metal que eram usados pelos membros daquela comunidade. Muito interessante verem-se tigelas, sandálias e até partes de tecidos muito bem conservados de há mais de 2 mil anos atrás!
 
YAD VASHEM - MUSEU DO HOLOCAUSTO
Fico sempre com pena do pouco tempo disponível para visitarmos este museu que lembra o terrível e revoltante sofrimento do povo judeu em meados do século 20.
Cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazi, apenas pelo "crime" de serem judeus. O museu alberga uma quantidade assinalável de objectos oriundos dos campos de morte existentes na Polónia e na Alemanha, desde roupas, sapatos, outros objectos pessoais dos judeus ali assassinados e incinerados, incluindo um pedaço do chão original do gueto de Varsóvia. Este museu recentemente remodelado e ampliado tem uma vasta colecção de filmes da época conseguidos aos russos e americanos, e que mostram aos visitantes as indescritíveis crueldades perpetrados pelos mandatários do regime nazi.
Visitar este museu é imprescindível para todos quantos querem tentar perceber o maior genocídio do século 20. Saliento "tentar perceber", porque não se conseguem realmente compreender todas as causas e motivos que levaram a esta página horrorosa da História. Ficamo-nos apenas pelo estudo das raízes do anti-semitismo, um mal tão antigo como a própria existência do povo judeu, e uma doença infelizmente incurável, que actualmente parece querer ressurgir em muitas partes do mundo actual.
 
O edifício do museu é cercado por uma vasta floresta onde milhares de árvores foram plantadas em memória dos "justos", aquelas pessoas não judias que salvaram do Holocausto alguns judeus, mesmo com prejuízo pessoal e até risco da própria vida.
Como portugueses e residentes em Portugal, não poderíamos deixar de prestar a nossa singela homenagem ao grande herói português Aristides de Sousa Mendes que, em 1943, salvou da morte cerca de 30 mil pessoas, a maioria judeus, concedendo-lhes num espaço de 48 horas os vistos que na sua condição de cônsul português em Bordéus (França) só ele poderia proporcionar.
O resultado deste nobre e louvável acto humanista foi a demissão forçada da sua posição de cônsul e a perda do salário e do emprego público, por ordens do ditador Salazar, levando o cônsul, juntamente com a sua numerosa família à miséria. Mesmo as 2 cartas comoventes enviadas por Aristides Mendes ao Núncio apostólico em Lisboa e dirigidas ao então papa Pio XII de nada serviram...
 
Para além do edifício principal, o espaço do Yad Vashem alberga ainda um Memorial às Crianças mortas no Holocausto (cerca de 1.5 milhões) e uma sala onde se pode ver a chama eterna no meio dos nomes dos vários campos de morte onde pereceram os 6 milhões de judeus.
Esta visita mereceria um mínimo de 8 horas, mas as quase 2 ali passadas já puderam proporcionar uma perspectiva ainda que ténue de toda esta tragédia, suas causas e consequências. Devemos muito ao conhecimento e capacidade de comunicação demonstrados pelo nosso guia Iuval Goldenberg, uma verdadeira enciclopédia viva nesta e noutras matérias. Não só conta o conhecimento demonstrado, como a forma em como o mesmo consegue ser transmitido.
Com raras excepções, ninguém sai dali indiferente.
 
E assim terminou esta maratona pela Terra de Israel. Tudo passou tão rápido...!
Era tempo de almoçar, trocar as últimas impressões, e correr para o aeroporto internacional de Ben Gurion. Os últimos abraços, beijos e saudações continham certamente muita emoção, mais ou menos contida ou expressa, mas sempre com a esperança de que em breve nos possamos rever. Sim, porque quando nos despedimos de Israel, só há uma expressão consentida: "Até ao ano que vem, em Jerusalém!"
 
Shalom, Israel!

quinta-feira, setembro 07, 2017

PARLAMENTO EUROPEU VAI HOMENAGEAR O HERÓI PORTUGUÊS ARISTIDES DE SOUSA MENDES NO PRÓXIMO DIA 27

Está prevista para as 16H00 do próximo dia 27 a realização de um tributo ao grande e injustiçado herói português Aristides de Sousa Mendes. A homenagem será levada a efeito na sede do Parlamento Europeu, em Bruxelas, Bélgica, e deverá durar até às 18H00.
Entre os oradores do evento destacam-se o presidente do PE, Antonio Tajani, a beneficiária de um dos muitos vistos concedidos pelo ex-cônsul português em Bordéus Françoise Wybauw, o neto de Sousa Mendes, Gérald Mendes, e Olivia Mattis, actual presidente da "Fundação Sousa Mendes" nos Estados Unidos.
Estará também patente uma exposição "Estes são o meu povo! - A História de Aristides de Sousa Mendes."

ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Aristides era em Junho de 1940 o cônsul português em Bordéus. Confrontado com a presença de milhares de pessoas que tentavam um visto de Portugal para escaparem aos horrores do nazismo, podendo dessa forma atravessar a Espanha e esperar em Portugal por um destino melhor, o cônsul português encontrou-se literalmente entre "a espada e a parede", uma vez que ao conceder tais vistos, entraria em confrontação e desobediência com o então chefe do governo português, o ditador António de Oliveira Salazar.
Confrontado com a infame "Circular 14", emitida pelo governo de Salazar, proibindo a concessão de asilo a refugiados, muito em especial a judeus e a russos, Aristides de Sousa Mendes, um cristão convicto, escolheu a "desobediência" ao regime ditatorial e desumano que lhe pagava o salário, e numa decisão inesperada e súbita, passou a emitir cerca de 30.000 vistos num espaço de 48 horas apenas! Desses, 10.000 foram concedidos a judeus.
Este acto heróico foi descrito pelo historiador do Holocausto Yehuda Bauer, como "a maior acção de resgate alguma vez realizada por uma simples pessoa durante o Holocausto."
Aristides preferiu seguir a sua consciência de cristão. "Prefiro estar de bem com Deus contra os homens, do que de bem com os homens contra Deus", foi a sua famosa afirmação que justificou tão arriscada operação, e que lhe valeu da parte do ditador Salazar a despromoção profissional e a proibição de ganhar o seu salário.

Aristides viu ainda os seus 15 filhos serem impedidos de frequentarem a universidade e até mesmo de conseguirem um emprego.
Pouco antes de morrer em 1954, e a maior do maior infortúnio que se possa imaginar, Aristides escreveu 2 desesperadas cartas ao Núncio Apostólico em Lisboa, o representante do papa Pio XII, solicitando ao chefe católico romano uma ajuda urgente, uma vez que ele, como cristão tinha realizado o acto "cristão" de salvar da morte muitos milhares de "irmãos de Jesus."
Aristides morreu na maior miséria, sem nunca ter recebido qualquer resposta do chefe católico.
Tenho em minha posse a cópia dessas 2 comoventes cartas, verdadeiramente pungentes, e cuja leitura sempre me causa um misto de intensa emoção e revolta.
A única ajuda que Aristides recebeu veio da comunidade judaica em Lisboa, que alimentou a família do ex-cônsul na sua "cozinha comunitária" e foi pagando as suas despesas médicas. 


"UM JUSTO ENTRE AS NAÇÕES"

Quase completamente ignorado em Portugal, Aristides de Sousa Mendes foi primeiramente reconhecido em Israel no ano de 1966, como um dos "justos entre as nações."
A árvore plantada em sua homenagem encontra-se hoje no "Jardim dos Justos", no Museu do Holocausto, na capital eterna de Israel, Jerusalém,
Em 1986, o Congresso dos EUA emitiu uma proclamação em honra a este acto heróico. 
Em Portugal, foi só durante o governo de Mário Soares que o parlamento português, para além de um pedido de perdão, promoveu o cônsul postumamente à condição de embaixador. 


"Eu não poderia ter agido de outra forma, e portanto aceito com amor tudo aquilo que me sobreveio" - Aristides de Sousa Mendes

terça-feira, janeiro 27, 2015

70 ANOS DEPOIS: SERÁ QUE APRENDEMOS A LIÇÃO?

O mundo civilizado celebra hoje os 70 anos da libertação do campo de concentração nazi de Auschwitz, na Polónia, pelas tropas russas. 
Muitos sobreviventes do Holocausto nazi concentraram-se desde ontem neste local para aquilo que consideram ser a última vez em que tantos ainda se conseguem reunir, uma vez que é uma geração que vai rapidamente desaparecendo em razão da avançada idade. Muitos dos cerca de 300 sobreviventes reunidos desde ontem contam com mais de 90 anos de idade.
Assim, neste que foi chamado "um dos maiores cemitérios do mundo", estão hoje reunidos sobreviventes, jornalistas, os chefes de estado da Polónia, Alemanha, França e Ucrânia e muitos outros dignitários, representando mais de 40 países, incluindo Portugal, e que não querem fazer esquecer o maior genocídio humano jamais ocorrido na História. Israel faz-se representar pelo seu ministro Silvan Shalom.

Mordechai Ronen, um dos sobreviventes presentes nesta celebração e que perdeu os pais e duas irmãs neste mesmo campo de morte, testemunhou ter vindo a Auschwitz para contar ao mundo o que ali aconteceu, e, ainda que acreditando que nunca tal se repetirá, confessa que "infelizmente há hoje aqueles que negam que ele tenha acontecido."
No entanto . e segundo as suas próprias palavras - o facto de poder estar ali a fazer estas afirmações faz dele "um vencedor."

LUZ SOBRE AS TREVAS
SOBREVIVENTE MOSTRANDO O NÚMERO
TATUADO NO BRAÇO
Nas palavras de Ronald Lauder, presidente do "Congresso Mundial Judaico", os sobreviventes representam a vitória da luz sobre as trevas, e conquanto os que não fizeram parte do Holocausto não possam entender o que as suas vítimas suportaram, "sabemos que a forma em como viveram as suas vidas após a libertação ensina-nos lições importantes sobre a dignidade humana."

"ENFRENTANDO OS DEMÓNIOS DA INTOLERÂNCIA"

"Estamos uma vez mais enfrentando os demónios perenes da intolerância às mãos dos anti-semitas, extremistas e dos fanáticos religiosos que querem novamente despir-vos da vossa história passada e da vossa identidade" - afirmou o consagrado realizador judeu Steven Spielberg aos sobreviventes presentes ontem na celebração em Cracóvia.

"UMA FERIDA ABERTA"
Muitas são as expressões emitidas por este grupo de 300 idosos, homens e mulheres que sobreviveram à maior de todas as tragédias de que há memória:

"É doloroso regressar aqui."
"Traz-nos más memórias."
"Isto representa o encerramento das casas de morte do povo judeu."
"Emocionalmente útil vir aqui."
"É como voltar a abrir uma ferida."

"ESQUECER NÃO PODE SER A SOLUÇÃO"
O laureado prémio Nobel da Literatura Elie Wiesel, ele também sobrevivente ao Holocausto, gravou uma mensagem que foi ontem exibida perante o grupo dos sobreviventes e outros reunidos, em que confessava que, ao mesmo tempo que nunca tinha encontrado respostas para a questão de "o que é que tinha tornado seres humanos tão cruéis para outros seres humanos", mesmo assim sabe que esquecer ou distorcer não pode ser a solução.

"SE TIVESSEM SIDO APENAS JUDEUS..."
O presidente do "Conselho Mundial Judaico" foi ainda mais longe na verberação da sua inquietação, tocando com o dedo na ferida e criticando a indiferença do mundo actual face ao anti-semitismo: "Temos de nos questionar: será que aprendemos a lição?" - perguntou Lauder, acrescentando que enquanto milhões desfilaram em França depois do assassínio dos responsáveis do jornal satírico "Charlie Hebdo" e de quatro judeus num supermercado judaico, "se tivessem assassinado apenas os quatro judeus, não teriam havido manifestações nem reacções de protesto."
Lauder condenou ainda a atitude actual de indiferença face à matança dos cristãos no Médio Oriente, comparando a situação àquela que se vivia nos anos 40, na Europa:
"Aquilo que aconteceu na Alemanha nazi é que o mundo não reagiu, e mais uma vez vemos que o mundo não reage" - afirmou, implorando à comunicação social para que entreviste os sobreviventes, veja as suas lágrimas e ouça as suas vozes: "Auschwitz é mais do que um lugar. É um símbolo da indiferença do povo face ao que está acontecendo."

GOVERNO PORTUGUÊS ASSOCIA-SE À EFEMÉRIDE
CAMPO DE EXTERMÍNIO BIRKENAU
Na sua homenagem aos sobreviventes do Holocausto nazi, o governo português salientou que lembrar o extermínio nazi é recusar o ódio, intolerância, discriminação, xenofobia e racismo "que ressurgem na actualidade."
Num comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, o executivo português presta "homenagem aos milhões de judeus vítimas do extermínio nazi", acrescentando: "Ao assinalar esta efeméride, o governo português reafirma a necessidade de se preservar a memória do Holocausto e de assegurar que as gerações vindouras não o esquecerão."
ARISTIDES DE SOUSA MENDES
O comunicado recorda ainda os heróis do Holocausto, "pessoas - como os diplomatas portugueses Aristides de Sousa Mendes, Carlos Sampaio Garrido e Alberto Teixeira Branquinho - que, pela sua coragem e altruísmo, resgataram da morte milhares de judeus e outras vítimas do extermínio nazi."

"QUASE IMPOSSÍVEL DE COMPREENDER"
David Wisnia, um sobrevivente do Holocausto, agora com 88 anos, afirmou que o Holocausto era "quase impossível de compreender pela mente humana." E concluiu:

"Peço a Deus que como seres humanos sejamos capazes de aprender alguma coisa com isto."

Assim seja.
Shalom!



terça-feira, junho 17, 2014

ARISTIDES DE SOUSA MENDES LEMBRADO EM TODO O MUNDO NESTE "DIA DA CONSCIÊNCIA"


Hoje é o "Dia da Consciência". E a consciência tem memória. E essa deve ser preservada.
Um dos grandes vultos da Humanidade cuja consciência o "obrigou" a desobedecer às ordens humanas superiores (o ditador Salazar) chama-se ARISTIDES DE SOUSA MENDES, o Herói português que, durante o seu cargo como cônsul geral na cidade francesa de Bordéus em 1940, passou vistos nos passaportes de 30 mil pessoas em fuga ao Holocausto nazi. Entre essas, contavam-se 12 mil judeus, entre os quais grandes celebridades como o pintor Salvador Dali.
A consciência deste grande Homem - o maior herói português de sempre - levou-o a obedecer a ordens muito superiores às humanas: as ordens de Deus, que levaram este cristão a arruinar o seu futuro pessoal em troca da salvação de milhares de vidas humanas.
Realizam-se hoje, um pouco por todo o mundo, várias conferências, seminários e celebrações religiosas em memória da vida deste Homem que se tornou um exemplo de humanismo, tolerância e respeito pela vida humana. 
Há um velho ditado judaico que diz: "Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro". ARISTIDES DE SOUSA MENDES salvou 30 mil vidas. Salvou muitos mundos. Prejudicou-se a favor dos outros. Segundo ele, fez aquilo que um verdadeiro cristão teria de fazer.
Bem haja!
Shalom!

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=3975766

sexta-feira, junho 21, 2013

HOMENAGEM A ARISTIDES DE SOUSA MENDES: FINALMENTE O INÍCIO DA RECONSTRUÇÃO DA CASA MUSEU?

Mais de mil pessoas reuniram-se ontem na aldeia beirã portuguesa de Cabanas de Viriato para um evento que poderá finalmente mudar o estado lamentável em que se encontra a casa que um dia abrigou a família de um "homem justo", o cônsul português em Bordéus que em 1940 decidiu desobedecer às ordens do então primeiro-ministro António Salazar, e emitir em apenas 48 horas os vistos para que 30 mil pessoas - muitas das quais judeus - pudessem entrar em Portugal, fugindo do Holocausto, partindo mais tarde para destinos acolhedores longínquos: Brasil e Estados Unidos da América.
YARA, BRASILEIRA, FILHA DE CASAL "SALVO" POR ARISTIDES
É muito conhecida a História deste grande humanista português, já tema de vários filmes, documentários, livros, conferências e comemorações. Várias fundações foram criadas em Portugal, França e agora nos E.U.A. para promover não só os ideais humanistas deste homem mas também para tentar levantar apoios para a reconstrução da casa do cônsul, num lamentável estado, completamente em ruínas, e votada ao esquecimento pelos consequentes governos portugueses, desde Salazar até ao actual Cavaco Silva.
UM DOS SOBREVIVENTES "SALVOS" POR ARISTIDES
Nas 48 horas em que Aristides de Sousa Mendes emitiu os vistos para aqueles 30 mil judeus, a vida sorriu para todos esses futuros condenados à morte, figurando entre eles alguns nomes conhecidos, como é o caso do famoso pintor Salvador Dali.

MAIS DE 3 MIL DESCENDENTES JÁ LOCALIZADOS
A iniciativa de ontem partiu de grupos de descendentes de sobreviventes salvos por Aristides, especialmente nos E.U.A., tendo-se criado uma fundação para o rastreio das famílias dos 30 mil que tendo sido salvos pela bondade do cônsul português, passaram por Portugal e foram mais tarde acolhidos pelos EUA e pelo Brasil. É um trabalho difícil e moroso, mas ontem mesmo iniciou-se algo que poderá no mínimo mudar a situação da casa de Aristides. 

Muitas entidades estiveram presentes, desde uma representante do Ministério da Cultura, ao embaixador de Israel, ao rabino de Lisboa, a representantes municipais, etc., mas as pessoas mais relevantes foram sem dúvida alguns familiares do cônsul, especialmente o sr. António Sousa Mendes, neto directo do herói nacional, e que amavelmente nos concedeu uma entrevista que publicaremos atempadamente neste blog, e também um dos sobreviventes, agora com 85 anos, e que na altura tinha apenas 8 anos de idade, lembrando-se ainda do drama vivido pelos seus pais e por ele próprio no caminho de fuga entre Bordéus e Portugal.
ANTÓNIO SOUSA MENDES, NETO DO GRANDE HERÓI
Vários descendentes (uns 30) dos sobreviventes vindos dos EUA, Brasil, França, etc., fizeram questão de estarem presentes nesta homenagem ao grande homem que honra a História de Portugal e do mundo, já apelidado de "Schindler português", ainda que na minha opinião muito mais nobre do que o alemão Óscar Schindler, uma vez que este "salvou" pouco mais de 1000 judeus, mas "aproveitou-se" da mão de obra barata deles para seu proveito pessoal, enquanto que a acção humanitária de Aristides foi totalmente despretensiosa, custando-lhe até a perda da sua posição e trabalho como cônsul em Bordéus e a miséria material com que ele e sua família (15 filhos) tiveram de enfrentar os últimos anos de vida...
FAMÍLIAS INTEIRAS "SALVAS" POR ARISTIDES
O ditador Salazar não só não aceitou a "desobediência" de Aristides, como tratou de o "castigar", deixando este grande Homem completamente na miséria...
O porta voz do governo português prometeu ontem mesmo uma ajuda de mais de 300 mil euros para a reconstrução do telhado da casa, que se encontra completamente em ruínas. A salientar que dessa verba, 85% são provenientes de fundos comunitários.
Esperamos para ver até que ponto essa promessa se irá cumprir...

INAUGURAÇÃO DO MUSEU
ARQUITECTO JUDEU RESPONSÁVEL PELA OBRA
Ontem foi também inaugurado o primórdio do Museu dedicado à vida e obra de Aristides de Sousa Mendes numa construção provisória na entrada da casa, fruto do projecto de um jovem promissor arquitecto norte americano, ele mesmo neto de um dos sobreviventes salvos por Aristides, e que também esteve presente nas cerimónias realizadas ontem.
Apesar dos discursos de ocasião proferidos pelos representantes municipais e governamentais, a verdade patente diante dos olhos de todos é que a casa está completamente em ruínas, em risco de cair, já que nenhuma obra de recuperação ali foi feita nas últimas décadas. Isto apesar de ontem mesmo alguns desses representantes oficiais terem afirmado que sempre estiveram apoiando o projecto, e outras afirmações de ocasião típicas de políticos hipócritas e aproveitadores de ocasiões como as de ontem para se colocarem nos bicos dos pés...
Todos os descendentes presentes ontem nas homenagens ficaram visivelmente chocados com o estado da casa, interrogando-se certamente vezes sem conta porque será que Portugal trata os seus filhos e heróis desta forma...
Espero sinceramente que a partir de ontem as coisas comecem a mudar. Todo o evento foi acompanhado por todas as grandes estações de TV portuguesas, pela rádio e por alguns dos mais importantes jornais.
Ficou portanto o registo. Resta-nos agora "ver para crer".
O importante é a memória e o exemplo que Aristides deixou a toda a humanidade. Foi ontem citada a frase bíblica que "mais importa obedecer a Deus do que aos homens". Certamente que sim. Aristides foi bem o exemplo disso. Quando questionado sobre aquilo que o levou a tomar tão arriscada decisão, ele simplesmente respondeu: "Prefiro estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus."
Shalom!




segunda-feira, junho 17, 2013

CASA-MUSEU DE ARISTIDES SOUSA MENDES FINALMENTE UMA REALIDADE...



Familiares de sobreviventes da Segunda Grande Guerra estão a caminho de Portugal para honrar a memória de Aristides Sousa Mendes - o cônsul português em Bordéus que salvou milhares de judeus do Holocausto. O encontro será na próxima quinta-feira em Cabanas de Viriato, terra natal do homem que desobedeceu a uma ordem de Oliveira Salazar para ajudar os refugiados.

quinta-feira, novembro 08, 2012

ARISTIDES DE SOUSA MENDES: FINALMENTE, O FILME!


Finalmente...!
Estreia hoje em várias salas de cinema em Portugal o tão esperado e desejado filme sobre um dos maiores heróis portugueses de todos os tempos, o cônsul ARISTIDES DE SOUSA MENDES, que durante o seu desempenho diplomático em Bordéus, França, salvou cerca de 30.000 judeus da mais que provável morte nos campos de morte nazis, ao conceder vistos para que os mesmos pudesses escapar para Portugal e mais tarde para outros países, os EUA em particular.
Injustamente tratado pelo regime de então, e ainda esquecido por muitos em Portugal, Aristides de Sousa Mendes foi homenageado e honrado em Jerusalém como um dos "Justos", ou seja: um dos muitos gentios que durante o Holocausto salvaram ou patrocinaram o salvamento de judeus dos campos de extermínio nazi.
Este é portanto um filme a não perder!
Vemo-nos mais logo numa das salas onde o filme vai ser estreado...
Shalom, Israel!